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São já 100 milhões, os europeus que procuraram medicinas alternativas à convencional – e dois milhões são portugueses. Conheça algumas terapêuticas já reconhecidas na legislação nacional e que somam resultados práticos em muitas queixas de saúde.

Os números da Organização Mundial da Saúde (OMS) não deixam margem para dúvidas: as medicinas tradicionais, baseadas em terapias alternativas e complementares, estão a instalar-se a grande velocidade nas sociedades ocidentais. Segundo o último relatório desta organização sobre a estratégia a seguir para as Medicinas Tradicionais, entre 2014 e 2023, “na última década, registou-se uma acentuada subida na procura deste tipo de medicinas alternativas, baseada sobretudo na crença de que o natural é mais seguro.” Ainda que esta credibilidade possa ser posta em causa em alguns casos, a OMS, que reúne 194 países, acredita que estas medicinas alternativas devem ser reguladas e que existem vantagens no trabalho conjunto com a medicina convencional. A entidade estima que sejam mais de 100 milhões os europeus que as procuram numa base regular, sendo que cerca de dois milhões são portugueses. As razões para tal são relativamente fáceis de compreender: por um lado, devido ao estilo de vida moderno, ao stresse diário e às constantes preocupações, as populações procuram, cada vez mais, cuidados holísticos e centrados sobretudo na prevenção, e, por outro lado, recorrem a medicinas alternativas quando o sistema de saúde tradicional não lhes dá uma resposta eficaz.

Quais são as terapêuticas legisladas em Portugal?

Mas o que é a medicina tradicional e em que consistem as medicinas alternativas? Segundo a OMS, a medicina tradicional é o acumulado de determinados conhecimentos e práticas baseadas em teorias, crenças e experiências ancestrais de determinadas culturas, comprovadas cientificamente ou não, e que possam contribuir de alguma forma para a prevenção, diagnóstico e tratamento de doença física e mental. Medicinas complementares ou alternativas referem-se a práticas de saúde que não fazem parte da medicina convencional em determinados países e que não integram completamente os seus sistemas de saúde.

Um das grandes questões que a medicina ocidental coloca neste momento é a credibilidade destas terapêuticas alternativas e a sua eficácia nos pacientes. Os estudos científicos são mais do que muitos e algumas da terapias são até já aceites pela medicina convencional, como é o caso da medicina tradicional chinesa. Em Portugal, a legislação é bastante inovadora, segundo a opinião de Pedro Ribeiro da Silva, do Departamento de Estilos de Vida Saudáveis da Direção-Geral da Saúde (DGS). Diz este médico que a legislação portuguesa já regulamenta sete medicinas alternativas – a medicina tradicional chinesa, a acupuntura, a fitoterapia, a homeopatia, a naturopatia, a osteopatia e quiropraxia – e que Inglaterra, por exemplo, só legalizou duas, a osteopatia e quiropraxia. Além destas, muitas outras estão fora do sistema convencional, mas podem ser aplicadas a inúmeras patologias e, embora nem todos as recebam bem, por falta de confirmação científica, como é o caso do reiki, há terapeutas e pacientes para todas elas.

Fique a conhecer as medicinas alternativas reconhecidas pela legislação nacional.

Medicina Tradicional Chinesa

É um conjunto de práticas centradas na existência de energia que circula pelo corpo humano, utilizando técnicas desenvolvidas ao longo de milhares de anos na China. Trata-se de uma medicina multidisciplinar energética que inclui princípios como o estudo da relação yin e yang, a teoria dos cinco elementos, e os seus métodos terapêuticos abrangem a acupuntura, a fitoterapia, a massagem Tui Na, a moxabustão (aplicada nos mesmos pontos da acupuntura, mas usando calor em vez de agulhas), a dietética, e o chi kung (a arte de manipular a energia vital). Deolinda Fernandes, co-diretora da Escola de Medicina Tradicional Chinesa, sedeada em Lisboa, explica que esta é uma medicina que «avalia os circuitos energéticos, através, por exemplo, da apalpação do pulso, da observação da língua, realizando-se um diagnóstico muito completo com base nos síndromas apresentados. Explica que esta é uma medicina sobretudo preventiva, que antecipa problemas de saúde devido à avaliação energética que é feita. «Apesar de ser preventiva, é claro que também cura. Na China existem tantos hospitais de medicina convencional como de medicina tradicional», explica. A OMS já reconheceu à Medicina Tradicional Chinesa sucesso numa série de patologias, confirmando a sua eficácia. Segundo os especialistas, a vantagem deste tipo de terapêuticas é que vai à raiz do problema, trata o porquê e não apenas os sintomas, rejuvenesce e revitaliza o sistema imunitário e o corpo e, além disso, utiliza um número muito reduzido de produtos químicos.

O que trata e previne? Stresse, ansiedade, depressão, dores de cabeça, problemas digestivos e intestinais, dores musculares e entorses, ciática, doença cardíaca, problemas nervosos, constipações, alergias e muitas outras condições de saúde.

Acupuntura

É uma disciplina que faz parte da medicina tradicional chinesa – embora na legislação nacional tenha regulamentação à parte – e é talvez uma das mais bem aceites pela medicina convencional. Consiste na inserção de agulhas próprias (muito finas) na superfície da pele, em determinados pontos do corpo, chamados de meridianos, com o objetivo de reequilibrar a energia do organismo, eliminado assim a doença. Não tem quaisquer efeitos secundários uma vez que são as agulhas que estimulam a recuperação pela libertação de endorfinas no corpo.

Pedro Choy, um dos nomes mais conhecidos da acupuntura em Portugal, é um defensor da complementaridade entre medicina convencional e medicina tradicional. “A medicina chinesa tem, ao longo das últimas três décadas, demonstrado a sua eficácia no tratamento das mais diversas patologias. Quando cheguei a Portugal, na década de 80, muita gente confundia acupuntura e medicina chinesa com ciências ocultas. A qualidade dos profissionais e do trabalho realizado junto da população ajudou a modificar o cenário e, hoje, é vista de forma credível e eficiente”, refere. Diz que, pelo facto de não terem efeitos secundários, são terapêuticas clean, e que para além de recorrerem a processos naturais (não invasivos), permitem uma alta taxa de tratamento. “Não é por acaso que temos muitos pacientes que nos chegam por recomendação de médicos da medicina convencional. O paciente só tem a ganhar com esta complementaridade”, explica.

O que trata e previne? Doenças relacionadas com dor, como a artrite, dores nas costas, no pescoço, ombros e joelhos, tendinites e ciática.

Fitoterapia

Também é uma disciplina da medicina tradicional chinesa, mas pode haver diversos tipos de fitoterapia, conforme o tipo de terapêutica utilizada. Esta consiste no uso das plantas medicinais para a cura e prevenção de determinadas doenças. Há milénios que o Homem usa as plantas como curativos para as suas maleitas, sendo a fitoterapia a base da farmacologia moderna. Grande parte dos medicamentos que utilizamos, alguns bem conhecidos como a aspirina (salgueiro e ulmeiro), a morfina (sementes de ópio), entre outras, são feitos a partir de extratos de plantas. Porém, ao contrário do medicamento, que apenas extrai o princípio ativo, a fitoterapia usa parte da planta ou até a planta toda. São utilizadas plantas marinhas, bolbos, frutos, raízes, flores, cascas, sementes, folhas, tudo o que possa trazer benefícios à saúde. No entanto, cada planta possui vários constituintes químicos que podem produzir efeitos nefastos no nosso organismo, quando desconhecidos.​

O que trata e previne? Doenças crónicas, de longa duração, como as alergias, asma e dificuldades respiratórias, depressão, problemas digestivos, problemas de pele, entre outras.

Osteopatia

Para João Paulo Santos Silva, osteopata da clínica OSTEOJP, a osteopatia é mais do que uma terapia, é uma filosofia de vida. Com mais de 20 anos de experiência e um extenso currículo, afirma que, cada vez mais, as pessoas estão a procurar esta disciplina, pois não arranjam solução para as suas queixas na medicina convencional. “Entendo que as várias medicinas devem trabalhar em conjunto e não de costas voltadas”, diz. A Ordem dos Médicos nacional chegou mesmo a assumir num artigo de uma das suas revistas que a ciência médica aceita de bom grado profissionais não médicos, como é o caso das técnicas de manipulação realizadas pelos osteopatas.

A osteopatia pode ser aplicada a qualquer pessoa e em qualquer idade. A prática baseia-se no princípio de que todos os sistemas do corpo estão relacionados e que, por isso, qualquer disfunção num sistema afeta todos os outros. Trata-se de um tratamento que incide sobre a coluna vertebral e que trabalha toda a parte muscular e visceral. O profissional de osteopatia não elimina apenas as consequências do problema, mas procura sempre desvendar a razão do sintoma. Os terapeutas referem que é eficaz, económica, minimiza síndromas dolorosas, é menos agressiva e estimula a força e a flexibilidade.

O que trata e previne? Dor ciática, lombalgia, escoliose, hérnias discais, torcicolos, entorses, tendinites, dores nos ombros, tensões e contraturas musculares, enxaquecas e vertigens.

Homeopatia

É uma das medicinas alternativas reguladas pela legislação nacional, mas é, ainda assim, uma das mais controversas em todo o mundo. Vários estudos científicos asseguram que os chamados medicamentos homeopáticos nada contêm para além de água, mas na verdade há milhões de utilizadores que afirmam ter bons resultados com estes tratamentos. Esta terapêutica alternativa baseia-se na ideia de que a diluição de uma substância a torna mais forte e que a água pode manter a ‘memória’ de uma substância, o que para os especialistas vai contra as leis da ciência. Os homeopatas defendem que, em vez de combater a doença diretamente, os produtos homeopáticos têm a principal função de estimular o corpo a lutar contra a doença, através de um processo de reorganização das funções vitais, estimulando a autorregulação do corpo.

O que trata e previne? Stresse, depressão, ansiedade, insónia, obesidade, gastrite, úlcera, asma, rinite, reumatismo, fibromialgia, tiroide, diabetes, entre muitas outras patologias.

Naturopatia

É uma medicina alternativa que aplica uma abordagem integral da saúde e da doença, valorizando sempre a ligação entre a mente e o corpo, defendendo que a as emoções e a espiritualidade afetam o equilíbrio e o bem-estar. Usa a nutrição curativa, com suplementos essenciais, as plantas medicinais, a homeopatia e diversas outras técnicas que se mostrem eficazes nas patologias e sem riscos para o paciente. Esta medicina utiliza, por exemplo, além da osteopatia, a reflexologia podal, uma terapia centrada na crença de que os nossos pés estão repletos de zonas reflexas no nosso organismo e que estimulando esses pontos estamos a estimular a regeneração dos órgãos correspondentes. Em simultâneo, esta terapia usa óleos e essências da aromoterapia, que trabalham em sinergias com a zona reflexa a tratar. A naturopatia utiliza ainda outras técnicas como a hidroterapia, geotermia, cromoterapia, florais de Bach, iridologia, meditação entre muitas outras, todas integradas na busca da autocura. Mais do que uma medicina esta é uma filosofia de vida suportada em tudo o que é natural.

O que trata e previne? Quase todas as patologias, destacando-se, por exemplo, doenças agudas, crónicas, artrite, infeções do ouvido, asma, insuficiência cardíaca congestiva e hepatite.

Quiropraxia

É a sétima terapêutica regulada em Portugal, sendo esta uma prática com bastante implementação nos Estados Unidos, onde nasceu em finais do século XIX. Trata-se de uma terapia que usa a manipulação da coluna vertebral para tratar de problemas não só da própria coluna como muito outros. Pedro Costa Figueira, quiroprático e responsável pela clínica Health Connection, refere que devemos visitar um profissional “assim que temos coluna.” De acordo com a sua opinião, a prevenção, tal como já acontece com a ortodontia, é fundamental para uma boa saúde futura.

A quiropraxia e a osteopatia confundem-se um pouco, mas Pedro Costa Figueira esclarece que enquanto a segunda trabalha com o sistema muscular e visceral, a primeira trabalha só com a manipulação da coluna, focando-se na correção da disfunção neuro-articular. Estes tratamentos são algo demorados, pois «ninguém consegue fazer uma correção em apenas duas ou três semanas. Geralmente, estendem-se por três a quatro meses até se chegar à fase da manutenção», explica.

O que trata e previne? Subluxações vertebrais, que consistem em alterações de articulações que comprometem a integridade neural e podem afetar todos os órgãos.

É adepta das medicinas alternativas? De quais?

 

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