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Estudos recentes mostram que há cada vez mais crianças na Internet e que o acesso à web inicia-se cada vez mais cedo… Vivem permanentemente “ligadas” e já não imaginam os seus dias sem o seu smartphone ou tablet…

O último inquérito europeu Net Children Go Mobile, que analisou a utilização da Internet nas camadas mais jovens, revelou que há cada vez mais crianças na Internet e a explorar as redes sociais como o Facebook. De acordo com os dados recolhidos, 22 por cento das crianças entre os 9 e os 10 anos e 53 por cento entre os 11 e os 13 anos já utilizam esta rede social. O estudo alerta ainda que a utilização da Internet é cada vez mais privada e móvel durante a infância. “Há mais crianças a utilizar a Internet na privacidade do seu quarto e quando estão fora de casa”, pode ler-se nas principais conclusões da pesquisa realizada em sete países europeus, entre os quais Portugal.

Como funciona nas famílias portuguesas?

Na casa de Gina e Eduardo Sanches, há um computador portátil, um tablet e quatro smartphones. Apesar de ainda serem adolescentes, os filhos, Marcelo, de 18 anos, e Bárbara, de 15, são os que mais utilizam os novos dispositivos eletrónicos. São importantes ferramentas de pesquisa para os trabalhos escolares, mas, na maioria das vezes, são utilizados para conversar com os amigos e partilhar momentos através das redes sociais, como o Facebook ou o Snapchat. Uma investigação portuguesa, realizada pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, revelou que é principalmente dentro de casa que as crianças mais acedem ao universo online. Diana Carvalho, socióloga e uma das autoras do estudo, fala-nos no aparecimento de um novo cenário doméstico de crianças na Internet, chamado “casa tecnológica ou “recreio digital”. “Os nossos dados mostram que o acesso à Internet pelas crianças e jovens é praticamente universal e muito generalizado no seu lar. A maioria tem, pelo menos, um computador e acesso à rede em casa, bem como vários objetos tecnológicos como o telemóvel, o leitor de mp3, a consola ou a televisão”, refere a especialista, investigadora na área da sociologia da família, infância e juventude.

O acesso precoce

As últimas investigações revelam também que há um acesso cada vez mais precoce ao mundo online. Segundo o Eurobarómetro já referido, o maior crescimento na utilização da Internet, nos últimos anos, aconteceu precisamente entre as crianças mais novas. Cerca de 60 por cento das crianças entre os 6 e os 10 anos já são utilizadoras da Internet. João Bernardo, de 11 anos, faz parte das estatísticas apuradas. Tinha apenas 9 anos quando começou a usar o computador dos pais. Gosta de fazer pesquisas e de visualizar vídeos de futsal (o desporto que pratica) no Youtube. No entanto, apesar da sua autonomia no uso das novas tecnologias, João Bernardo está sempre acompanhado pelos pais, João Brito e Catarina Silva. “Tentamos estar sempre presentes para controlar o tipo de conteúdos a que ele tem acesso e estamos sempre atentos ao tempo que passa online. Quando consideramos ser exagerado, sugerimos-lhe que faça outras atividades, nomeadamente ao ar livre”, conta a mãe.

Existe uma idade ideal?

Na opinião da psicóloga Alexandra Barros, coordenadora do Departamento da Infância da Psicronos, o registo numa rede social deve acontecer “o mais tarde possível”. Atualmente, o Facebook tem uma idade mínima de 13 anos, mas, segundo a psicóloga, os especialistas já estão a estudar a hipótese de alterar para os 16. “Sou apologista de que se cumpram as idades mínimas estabelecidas para os filmes, para os jogos e também para as redes sociais”, afirma. Contudo, acrescenta que compreende os motivos que levam os pais a contornar estas regras. “Não querem sentir-se responsáveis pela menor participação social dos filhos e, ao mesmo tempo, receiam que criem contas sem o seu conhecimento.” A Bárbara abriu o seu perfil no Facebook quando tinha 13 anos, mas as amigas e colegas de escola já usavam este rede social e Bárbara queria acompanhá-las. “Na altura, achei que ainda era muito cedo. Achei que ainda não tinha maturidade suficiente”, justifica a mãe. Quando Bárbara abriu a sua primeira conta online, o primeiro passo que Gina tomou foi abrir também a sua página de Facebook para poder controlar a atividade da filha. O outro foi alertá-la para os riscos e os cuidados a ter, nomeadamente nas configurações de privacidade das publicações que devem ser restritas aos amigos e ainda em relação à rede de amigos que deve incluir apenas as pessoas que façam parte da sua rede social real. “A atitude meramente proibitiva está fora de questão. A chave da parentalidade é a comunicação e é através dela que os pais vão poder prevenir, detetar e corrigir situações problemáticas”, acrescenta a psicóloga sobre as crianças na Internet.

Os riscos em causa das crianças na Internet

O principal risco do acesso, cada vez mais, precoce, à Internet por parte das crianças reside na sua imaturidade e vulnerabilidade. “São menos capazes de distinguir o certo do errado, de avaliar os riscos e perigos, de antecipar consequências, de adiar a gratificação e de regular o próprio comportamento. Nesse sentido, não só têm maior probabilidade de desenvolver uma dependência, como também estão muito mais expostas ao assédio, nas suas várias vertentes”, explica Alexandra Barros. Por outro lado, “estas crianças têm acesso a uma quantidade de conteúdos impróprios para a sua idade. Além disso, as tecnologias, de uma forma generalizada, podem trazer alterações ao nível do sono, da atenção e do processamento de informação, devido ao bombardeamento constante de estímulos, prejudicando o rendimento escolar”, acrescenta ainda a psicóloga. Entre os vários especialistas, encontram-se discursos opostos sobre os efeitos da Internet na infância. Por um lado, pode promover maior autonomia, criatividade e inovação, por outro, maior sedentarismo e isolamento. Alexandra Barros ressalva que as novas tecnologias e as redes sociais também trouxeram “ganhos importantes”. “Há um fácil e rápido acesso à informação, há aplicações que ajudam a promover competências e há a possibilidade de manter e recuperar ligações.” O desafio é e será sempre encontrar um equilíbrio. “Não deixar que as tecnologias e as redes sociais substituam as relações cara a cara, nem as atividades físicas ou outro tipo de oportunidades que nos ligam aos outros e a nós próprios”, afirma a especialista. O estudo do ISCS da Universidade de Lisboa provou também que as redes sociais online são em grande parte uma extensão do mundo offline. “Muitas vezes, as crianças são nelas introduzidas por pares ou membros da sua família e os amigos online são tipicamente pessoas que as crianças conheceram no seu dia a dia”, revela a socióloga Diana Carvalho sobre as crianças na Internet.

Do universo online para o mundo real

“Avaliar o tempo que os filhos passam ligados e, em conjunto, elaborar uma lista de responsabilidades, tarefas e outras formas de se entreterem, nomeadamente promovendo encontros com os amigos, ir ao cinema e à praia”, sugere a psicóloga para evitar o isolamento e a perda de algumas competências, especialmente sociais, afetivas e intelectuais, as consequências mais preocupantes do uso excessivo da Internet nas crianças e adolescentes. “É através da brincadeira, do faz-de-conta, da atividade física e da relação com os outros que as crianças adquirem muitas competências intelectuais, socioafetivas e motoras e o que vejo é um número crescente de crianças com grandes lacunas em todas estas áreas”, refere Alexandra Barros. A escritora e jornalista britânica Liat Hughes Joshi sugere no seu último livro, Como Desligar o Seu Filho (Marcador), publicado recentemente em Portugal, 101 Ideias para Ajudar as Crianças a Desconectarem os Aparelhos Eletrónicos e a Aproveitar a Vida Real. A ideia de lançar esta obra surgiu precisamente depois de a autora perceber que as crianças estão constantemente “agarradas” aos seus telefones e que para os pais está a ser uma luta conseguir fazer com que elas se desprendam dos seus gadgets. “Precisamos de ajudar os nossos filhos a obter o equilíbrio certo para que eles também possam apreciar os relacionamentos offline com os amigos e a família, bem como as experiências que acontecem à sua volta”, alerta a escritora. Tal como podemos ler no seu livro, “os ecrãs fazem parte da nossa vida, no entanto, não devem transformar-se na nossa própria vida”.

3 atividades originais para experimentar com os seus filhos…

…e que vão ajudá-los a desligar-se dos aparelhos eletrónicos.

  • Banho à hora errada. Quando está a chover lá fora e já viram televisão suficiente, mantenha as crianças mais pequenas entretidas e contentes com uma brincadeira na banheira. Torne esta experiência mais interessante, comprando lápis de cera próprios para o banho ou espuma moldável;
  • Crie uma cápsula do tempo pessoal. Encontre uma caixa e dê-a aos seus filhos para que a decorem e encham com listas dos seus sonhos e objetivos para os dez anos seguintes. Também podem acrescentar-lhe fotografias e recordações da sua vida. A caixa terá, depois, de ser selada e escondida, para ser aberta no futuro;
  • Faça uma sessão fotográfica temática. Uma sessão fotográfica, em que eles têm de reunir acessórios e trajes e construir um cenário numa parede, requer bastante preparação. Pense num tema para a sessão, como vintage, grunge, chapéus cómicos, contrastes de roupas ou o livro ou o filme favoritos.

Crianças na Internet. O que tem a dizer sobre este tema?

 

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