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Sabia que os cosméticos que aplicamos na pele não deviam ter fragrância? Conversámos com o dermatologista Fernando Guerra para perceber porquê.

Para algumas pessoas, os perfumes que os outros usam são tão incomodativos como o fumo de tabaco. Acontece que, hoje em dia, é mais fácil escapar aos efeitos desta dependência do que às fragrâncias de terceiros. Estão sentadas ao nosso lado no autocarro e no metro, de pé na fila do supermercado, no local de trabalho… Praticamente todos os produtos de beleza são aromatizados. No caso dos cosméticos, e até de alguns cosmecêuticos (cuidados tópicos com finalidade terapêutica), tal verifica-se por dois grandes motivos. Saiba quais nas linhas seguintes.

Marketing sensorial

Pode ser uma estratégia de marketing olfativo em que a marca desenvolve uma fragrância característica e injeta-a em todas as gamas. É uma forma de atrair e fidelizar o consumidor, que compra os produtos não só pela sua eficácia, mas também pelo cheiro agradável e ainda garante que dificilmente nos esqueçamos que marca estamos a aplicar. “Acima de tudo está o marketing”, declara o dermatologista Fernando Guerra.

Com camuflagem, sff

Por outro lado, também pode ser uma maneira de disfarçar o odor desagradável de alguns dos ingredientes que compõem os cremes hidratantes ou cuidados anti-idade. Esta será a razão que leva a grande maioria dos cosméticos, incluindo certos produtos de farmácia, a terem perfume. “No meu tempo usava-se enxofre para tratar a acne. Preferia ter borbulhas, porque, por mais que a pessoa se limpe, é um cheiro que fica na pele”, comenta. Mesmo hoje, “ainda há champôs com enxofre que são disfarçados com fragrâncias, senão não vendiam”, informa o especialista.

Assalto aos sentidos

Tudo isto faz sentido, sobretudo para as marcas. No entanto, para o consumidor a história é outra. Em primeiro lugar, o nosso olfato é diariamente atacado pelas misturas mais enjoativas de fragrâncias, podendo causar dores de cabeça e até náuseas às pessoas mais sensíveis aos cheiros. Em segundo lugar, mas mais importante, está o facto de a alergia cutânea ao perfume e aos produtos perfumados ser comum. O problema é que pode ser difícil de diagnosticar, uma vez que ainda existem poucos cosméticos que divulgam a sua lista completa de ingredientes e também porque se trata de uma alergia de tipo IV, em que a reação da pele é retardada.

Prova de contacto

A reação ao perfume de um cosmético “não se manifesta logo, porque os nossos linfócitos guardam essa alergia e, um dia, aleatoriamente, sem sabermos bem porquê, ficamos com um eczema brutal depois de aplicar aquilo que já usávamos há muito tempo”, esclarece o dermatologista. A verificar-se uma situação como esta, Fernando Guerra aconselha a consultar um médico dermatologista que faça provas de contacto. Guerra refere-se à bateria standard europeia de alérgenos, a qual permite diagnosticar uma alergia cutânea através do contacto da pele, com uma mistura de substâncias químicas e naturais usada na base dos perfumes. “Se for alérgica a essa mistura, nunca mais na vida pode aplicar perfume ou cosméticos perfumados”, avisa o especialista.

Transparência acima de tudo

Além dos aspetos já referidos, Fernando Guerra recomenda que, no momento da compra, prefira os cosmecêuticos aos “cosméticos puros”. De acordo com o dermatologista, os produtos que encontramos à venda na farmácia são mais seguros porque têm de “declarar, obrigatoriamente, a sua composição e percentagem de ingredientes ativos”. Contudo, requerem que o consumidor saiba o que está a procurar e que conheça os vários elementos na sua designação química ou botânica [vejas as caixas Sintetizados e Ao Natural].

Na eventualidade de terem uma concentração superior a 0,001 por cento de um elemento que dá cheiro, o produto tem de especificá-lo no rótulo através da expressão ‘com perfume’ ou das palavras ‘perfume’ ou ‘parfum’, em francês. O que não só nos permite fazer uma escolha informada, como também facilita o trabalho do dermatologista caso menifestemos uma reação alérgica. Outra vantagem é que, tendencialmente, os cosmecêuticos são mais baratos do que os cosméticos de perfumaria.

Receita secreta

“Os cosméticos ditos ‘puros’ são protegidos por uma coisa chamada ‘segredo da cosmética’”, conta o especialista. Ou seja, as marcas de perfumaria não são obrigadas a divulgar tudo o que os seus produtos contêm. Sobretudo no que toca ao cheiro, basta-lhes dizer que foi acrescentada uma fragrância sem ser necessário especificar os ingredientes que a compõem.

Quando uma marca lança um cosmecêutico sem perfume, na Europa, tem de o referir na embalagem, por exemplo, através da expressão francesa ‘sans parfum’. Já os produtos oriundos dos Estados Unidos da América anunciam que são ‘fragrance-free’ ou ‘unscented’.

Reação adversa

O contacto excessivo com a água é um dos fatores que pode causar “tendência para fazer alergia aos produtos cosméticos perfumados”. Fernando Guerra, dermatologista, explica que “a água é traumática; se colocarmos a pele debaixo de água 20 vezes, acabamos por fazer um traumatismo”. As mãos são os membros do corpo mais expostos a esta agressão. Consequentemente, vão-se tornando secas e, como “as pessoas aplicam pouco creme, cria-se uma dermite irritativa”, que, por sua vez, vai facilitar a penetração de ingredientes, como o perfume, que vai sensibilizar ainda mais a pele e favorecer o desenvolvimento de reações alérgicas.

Ao natural

Embora os óleos essenciais utilizados para aromatizar produtos de beleza sejam menos agressivos para a pele, a verdade é que há pessoas que desenvolvem uma sensibilidade aos mesmos ou pior. “Todas as essências podem provocar alergias”, confirma Fernando Guerra. Para despistar esta situação, também pode fazer uma prova de contacto ou saber que ingredientes evitar. Conheça-os.

Canela (Cinnamomum); Extrato de flor rosa (Rosa damascena); Eucalipto; Hortelã-pimenta (Mentha piperita); Laranja (Citrus sinensis); Limão (Citrus limon); Lima (Citrus aurantifolia ou Citrus medica); Menta (Mentha spicata); Óleo de alfazema (Lavandula angustifolia); Óleo de bergamota (Citrus bergamia); Óleo de Ylang-ylang (Canaga odorata) e Tangerina (Citrino tangerina)

Fonte: greenpeople.co.uk; liveoakacupuncture.com

Sintetizados

Existem 26 ingredientes – de origem natural ou química – que são sintetizados em laboratório e, depois, usados na base de perfumes. Conheça os que aparecem com mais frequência nos cosméticos e que têm maior probabilidade de causar reações cutâneas, em peles suscetíveis. “As peles sensíveis são mais vulneráveis a qualquer tipo de agressão externa”, comenta o dermatologista.

Cinnamal; Hydroxycitronellal; Amyl cinnamal; Geraniol; Eugenol; Isso-eugenol e Evernia prunastri (musgo de carvalho)

Fonte: Allergens from the Standard Series (Klaus E. Andersen, Ian R. White, An Goossens, 2001, Chapter 29)

Boa compra

Embora, atualmente, comecem a aparecer cada vez mais cosméticos sem perfume, para diferentes tipos de pele e com objetivos distintos – hidratar, tratar a acne, disfarçar imperfeições, combater os sinais de envelhecimento cutâneo, etc. -, a verdade é que a oferta ainda é bastante limitada. Para ajudá-la no processo de escolha, reunimos aqui alguns cosmecêuticos que não contêm fragrância.

cosméticos

Cuidado diário não oleoso, que acalma os sinais de desconforto cutâneo.

Toleriane Ultra Fluide, 20,10€, La Roche-Posay

 

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